Democracia em risco: quando o medo vira arma política e o terrorismo veste terno e gravata
Entenda como o bolsonarismo e a política do medo ameaçam a democracia brasileira sob o pretexto de combater o narcotráfico. Um artigo inédito, crítico e impactante sobre poder, manipulação e terrorismo político.
- Por O Gazeta
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Entre facções criminosas e o bolsonarismo, o que realmente ameaça a paz pública e o Estado Democrático de Direito no Brasil?
Por Beto da Web Jornalista e educador financeiro especializado em análise política e comportamento social
O novo nome do terror
O século XXI reinventou o conceito de terrorismo. Se antes ele estava restrito a grupos armados, bombas e atentados em regiões de conflito, hoje o terrorismo assume rostos familiares, discursos patrióticos e bandeiras nacionais. O perigo deixou de vir apenas dos morros e fronteiras — e passou a habitar os palanques e os algoritmos.
A recente tentativa de enquadrar as facções criminosas brasileiras como organizações terroristas, impulsionada por setores bolsonaristas e com apoio explícito de Donald Trump, reacende um debate urgente: quem realmente ameaça a democracia brasileira — o narcotráfico, ou a manipulação política do medo?
A estratégia da “isca do ódio”
Desde setembro, os Estados Unidos, sob comando de Trump, vêm promovendo ataques militares em águas do Caribe contra embarcações supostamente ligadas à facção venezuelana Tren de Aragua. O problema é que não há provas de que os mortos fossem criminosos. Mesmo assim, os vídeos dos ataques são editados e publicados como “propaganda antiterrorista”, viralizando nas redes sociais com ajuda dos algoritmos que premiam o ódio — o famoso rage bait, ou “isca de ódio”.
No Brasil, o discurso encontrou eco entre políticos que buscam capital político junto ao eleitorado conservador. Flávio Bolsonaro chegou a sugerir, em tom de provocação, que embarcações americanas “ajudassem” a combater o tráfico na Baía de Guanabara. O recuo posterior, dizendo se tratar de uma “brincadeira mal interpretada”, é típico da tática conhecida como “apito de cachorro” — uma mensagem cifrada para o público-alvo, que nega a intenção depois que a repercussão cresce.
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Terrorismo de conveniência
O lobby para classificar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas não tem apenas uma motivação de segurança. Ele abre caminho para algo mais perigoso: o aval internacional para que forças estrangeiras intervenham no território nacional sob o pretexto de “combate ao terror”.
Documentos entregues por Flávio Bolsonaro e Cláudio Castro a autoridades americanas reforçam essa narrativa, sugerindo uma parceria entre governos estaduais e os Estados Unidos. Essa aliança, travestida de “cooperação”, é, na prática, uma renúncia à soberania nacional e um flerte perigoso com a submissão geopolítica.
Para o governo brasileiro, a medida é uma bomba-relógio. Ao designar grupos internos como “terroristas”, o país poderia sofrer sanções econômicas internacionais — e abrir precedente para que qualquer operação policial mal explicada se torne justificativa para execuções sumárias ou intervenções externas.
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O “consórcio da paz” e a guerra política
Governadores de direita, reunidos sob o irônico nome de “consórcio da paz”, defendem a medida como um “avanço no combate ao crime”. Na prática, o que se vê é um alinhamento com a agenda trumpista, que instrumentaliza o medo para justificar políticas de repressão e militarização.
Tarcísio de Freitas, por exemplo, foi rápido ao reativar o deputado Guilherme Derrite — envolvido na mais sangrenta operação policial da história de São Paulo — para relatar o Projeto de Lei 1283/2025, conhecido como “PL do Terror”. A proposta quer ampliar o conceito de terrorismo para incluir facções e milícias, mas, ao mesmo tempo, tira da Justiça Federal o controle sobre esses casos e empodera polícias civis e estaduais.
Em outras palavras: é a legalização do arbítrio. E, sob o discurso de “lei e ordem”, abre-se uma brecha para o uso político da repressão — especialmente contra movimentos sociais e opositores.
Narcotráfico ou narcopolítica?
O curioso é que os mesmos grupos que clamam por “mão de ferro” contra facções são os que flertam com práticas que se enquadram na própria definição de terrorismo. A Constituição Federal é clara: “constitui crime inafiançável e imprescritível a ação de grupos armados, civis ou militares, contra a ordem constitucional e o Estado Democrático”.
Ora, se o ataque de 8 de janeiro de 2023 foi uma tentativa de golpe de Estado, organizada, financiada e incitada por líderes políticos, não estamos diante de um ato terrorista?
Para a advogada Thaís Cremasco, conselheira da OAB/SP, a resposta é sim. O bolsonarismo, diz ela, exibe todas as características de uma organização terrorista: estrutura hierárquica, financiamento coletivo, propaganda ideológica e motivação baseada em intolerância e discriminação.
Enquanto facções como o PCC e o CV buscam lucro, o bolsonarismo busca poder — e o faz espalhando medo, desinformação e violência simbólica. “O crime das facções é o dinheiro; o crime do bolsonarismo é o medo. E o medo, quando usado como ferramenta política para impor ideologia, é a essência do terrorismo”, conclui Cremasco.
Democracia sob ataque: o medo como projeto político
A democracia não morre apenas com tanques nas ruas. Ela morre aos poucos, sufocada pela manipulação de narrativas, pela demonização da imprensa, pela transformação de adversários em inimigos e pelo uso do medo como ferramenta de poder.
Quando um Estado começa a rotular seus próprios cidadãos como “terroristas” por discordar do governo, o perigo já ultrapassou o crime organizado. Ele se instalou no coração da política.
O projeto de Trump e seus aliados latino-americanos — incluindo os discípulos brasileiros — não é apenas combater o tráfico. É expandir a doutrina do medo, um pretexto para militarizar a sociedade, silenciar opositores e transformar a guerra em espetáculo digital.
O verdadeiro inimigo da democracia
O terrorismo, em sua essência, é o uso do medo para controlar. Quando esse medo é fabricado artificialmente, amplificado por redes sociais e legitimado por autoridades eleitas, ele se torna ainda mais perigoso.
Não há dúvida de que facções criminosas são um problema grave. Mas chamá-las de “terroristas” enquanto se exalta quem tentou derrubar o Estado de Direito é um insulto à inteligência nacional.
Se o terrorismo é o uso da violência e do pânico para atingir fins políticos, então o verdadeiro terrorista não está nos becos — está nos gabinetes.
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