Peso do Machismo na Justiça e na Política Brasileira: Zambelli, Janja e Ramagem em um País de Dois Pesos e Duas Medidas

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Machismo institucional escancarado: Zambelli é condenada, Ramagem blindado e Janja atacada por sua atuação política. Um retrato brutal da desigualdade de gênero nos bastidores do poder no Brasil.

 A BALANÇA QUE PESA MAIS DE UM LADO:

Condenação de Zambelli, blindagem de Ramagem e ataques a Janja revelam o machismo institucional e a desigualdade na política brasileira.

Uma justiça com olhos bem abertos para uns e vendada para outros

Na mais recente e polêmica cena da política nacional, o Supremo Tribunal Federal condena, com o peso da lei, a deputada federal Carla Zambelli (PL-SP) a mais de 10 anos de prisão por crimes ligados ao uso indevido de sistemas do Poder Judiciário. Enquanto isso, na mesma semana, a Câmara dos Deputados tenta barrar a continuidade de uma denúncia contra Alexandre Ramagem (PL-RJ), investigado por envolvimento com uma suposta estrutura de espionagem ilegal e tentativa de golpe contra o Estado Democrático de Direito. Dois pesos, duas medidas.

Essa assimetria judicial e política escancara não apenas a fragilidade institucional diante de temas gravíssimos, mas também o machismo estrutural que orienta silenciosamente, porém de forma contundente, os bastidores do poder no Brasil.

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O caso Zambelli: uma queda anunciada?

Carla Zambelli, uma das principais vozes da direita bolsonarista no Congresso, sempre foi figura controversa. Desde sua eleição, adotou um estilo confrontador, beligerante e polarizador — características que lhe renderam projeção e apoio de setores conservadores, mas também uma série de processos e investigações.

Entre os episódios mais graves está o do dia 29 de outubro de 2022, véspera do segundo turno das eleições presidenciais, quando Zambelli sacou uma arma e correu atrás de um homem negro nas ruas dos Jardins, em São Paulo, após uma discussão política. O ato foi amplamente registrado em vídeo, provocando indignação nacional e internacional. Mesmo assim, a parlamentar escapou de medidas cautelares mais severas, à época, graças ao foro privilegiado.

Agora, o cerco se fecha: Zambelli foi condenada por envolvimento com o hacker Walter Delgatti Neto, acusado de invadir sistemas do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) a mando da deputada. A motivação? Criar um escândalo para enfraquecer as instituições e impulsionar narrativas conspiratórias. A pena imposta pelo STF atinge 10 anos e 8 meses de reclusão, além da cassação de seu mandato parlamentar, caso a Câmara não interfira — o que, surpreendentemente, não aconteceu.

Nenhum recurso de urgência foi protocolado por seu próprio partido. Nenhuma manifestação relevante de seus pares. Nenhuma blindagem. Nenhuma solidariedade institucional.

Ramagem: o operador da “Abin paralela”

e a blindagem silenciosa

Do outro lado da moeda, temos o deputado Alexandre Ramagem, delegado da Polícia Federal e ex-diretor da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) durante o governo Jair Bolsonaro. Ramagem é acusado de liderar uma estrutura paralela de espionagem, utilizando ferramentas da Abin para monitorar ilegalmente adversários políticos, jornalistas, ministros do STF e até membros da própria Polícia Federal.

O caso é gravíssimo. As investigações conduzidas pela PF apontam que Ramagem teria autorizado, quando era diretor da Abin, o uso do software israelense FirstMile para realizar espionagens clandestinas, sem qualquer respaldo judicial. Trata-se de uma violação direta e frontal à Constituição e ao Estado de Direito.

Apesar disso, a Câmara dos Deputados barrou o avanço da denúncia, alegando “falta de provas robustas” — mesmo diante de mensagens, relatórios e indícios consistentes. A decisão, liderada por uma maioria governista e oposicionista, foi interpretada por especialistas como mais uma demonstração da autoproteção corporativa do Legislativo, que muitas vezes se recusa a permitir que seus membros respondam judicialmente de forma efetiva.

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O silêncio da Câmara diante de Zambelli: coincidência ou misoginia institucionalizada?

É inevitável, diante de tais fatos, que surja uma pergunta incômoda: por que Carla Zambelli não foi protegida, enquanto Alexandre Ramagem foi blindado?

A resposta mais evidente é também a mais dolorosa: o machismo estrutural que domina os bastidores do poder legislativo brasileiro. Mulheres que ocupam espaços de poder, especialmente quando fogem do estereótipo da figura dócil, passiva e submissa, tendem a ser mais cobradas, mais punidas e menos defendidas que seus pares homens.

Zambelli, por mais polêmica que seja, foi abandonada até mesmo por seus correligionários. Nenhuma mobilização significativa de bastidor foi feita para salvar seu mandato. Nenhuma articulação com o presidente da Câmara. Nenhuma nota oficial. Foi deixada à própria sorte.

Já Ramagem, mesmo com acusações que envolvem possíveis crimes contra o próprio regime democrático, foi resguardado com um esforço claro de blindagem institucional.

A conclusão que se impõe é amarga: a seletividade judicial e política não é apenas partidária — ela é também de gênero.

 

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E Janja, a primeira-dama que incomoda:

o poder feminino sob ataque

Outro nome que ilustra o incômodo da presença feminina nos altos círculos de poder é o de Rosângela da Silva, a Janja, socióloga e atual primeira-dama do Brasil. Desde a posse de Luiz Inácio Lula da Silva, Janja tem sido alvo de uma enxurrada de críticas — muitas delas misóginas, infundadas e desproporcionais.

Acusada de querer protagonismo político, de “mandar mais que o presidente”, ou de se envolver em agendas “que não são de sua competência”, Janja incomoda porque ousa falar, agir, participar, e opinar. Diferentemente de muitas primeiras-damas anteriores, que adotaram um papel mais decorativo ou simbólico, Janja participa ativamente de pautas sociais, culturais e ambientais.

Curiosamente, quando mulheres ocupam esse tipo de espaço público com firmeza, são vistas como “inconvenientes”. Já homens que agem da mesma forma são considerados “líderes visionários” ou “estrategistas”.

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O problema maior: um sistema que ainda

teme mulheres no poder

O caso Zambelli, a blindagem de Ramagem e os ataques a Janja evidenciam um padrão: o sistema político brasileiro ainda rejeita, marginaliza e pune mulheres que ousam exercer poder com autonomia.

Não se trata aqui de defender os atos ilegais ou irresponsáveis de qualquer agente público — todos devem ser julgados pela lei. Mas sim de denunciar a incoerência gritante com que homens e mulheres são tratados, especialmente quando o cenário envolve disputas de poder, protagonismo político e visibilidade pública.

Conclusão: ou a democracia vale para todos, ou não é democracia

A democracia brasileira vive um momento de tensão e reconstrução. Casos como o de Carla Zambelli e Alexandre Ramagem devem servir de alerta: não pode haver justiça seletiva, tampouco conveniência institucional que proteja uns e destrua outros com base em critérios subjetivos como gênero, influência política ou alianças de bastidor.

Uma democracia verdadeira exige isenção, imparcialidade, transparência e coragem para enfrentar seus próprios vícios. E exige, sobretudo, o compromisso inegociável com a igualdade de direitos e deveres entre homens e mulheres.

Se o Brasil quiser, de fato, amadurecer como nação democrática, precisa urgentemente rever os códigos ocultos que ainda regem sua elite política — e romper, de uma vez por todas, com o machismo institucional que transforma mulheres em alvos fáceis e homens em intocáveis.

Por justiça, por coerência, por igualdade. Porque ou a lei vale para todos — ou não vale para ninguém. Por um país onde gênero, a cor ou raça não define quem será protegido ou punido. Onde mulher não seja ameaça, mas presença. Onde Justiça não seja seletiva, mas soberana.

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